quarta-feira, 6 de maio de 2015

Fotografias que falsificam a História.


Por Joelza Em abril 17, 2015
                        
 A fotografia é um documento histórico ambíguo pois sendo um registro da realidade é, também, um recorte e uma percepção do mundo. A motivação ou intenção do fotografo (consciente ou não), o enquadramento, a lente utilizada e a iluminação interferem no resultado final e são fatores de construção do significado da fotografia. Daí seu papel documental e testemunhal ter um duplo caráter: é a um tempo representação da realidade e uma noção construída da realidade.
Isso é particularmente importante quando se trata de fotografias de uso político. Neste caso ela pode até ser usada para “criar” um fato histórico ou para modificá-lo, para exaltar um líder ou criticar e desacreditar inimigos políticos. Rastreando fotos em diversos arquivos e bibliotecas da Europa, o jornalista francês Alain Joubert encontrou centenas de fotos originais diferentes daquelas publicadas nos jornais e revistas. Elas foram editadas, cortadas, montadas ou tiveram pedaços apagados conforme a conveniência do líder político daquele momento. Os beneficiários destas operações foram os chefes de governos Mussolini, Hitler, Lenin, Stalin, Mao, Tito, Kim Il Sung.
A prática de adulterar fotos não é, contudo, exclusiva dos regimes autoritários, de esquerda ou direita. Os Estados Unidos também se valeram de fotografias editadas para engrandecer seus feitos e seus heróis. Há também o caso de fotos originalmente despretensiosas que, após um tratamento gráfico apurado, acabaram por se tornarem emblemáticas, como a icônica foto de Che Guevara usando uma boina com uma estrela.
As imagens que apresentamos a seguir são exemplos de que a fotografia não pode ser considerada como “prova” da realidade e que é preciso investigar todos os elementos que envolvem sua produção incluindo a foto em negativo (recurso inexistente nas máquinas fotográficas atuais) e sua revelação final.
O discurso de Lenin de 05 de maio de 1920

1920: Lênin estava à frente do poder e o país, mergulhado na guerra civil. Milhões de homens foram recrutados para lutarem no Exército Vermelho comandado por Trotsky. No ano seguinte, com o fim da guerra civil, Lenin criou a NEP (Nova Política Econômica) que liberava alguns setores da economia. Pouco tempo depois, Lenin afastou-se do poder por motivo de doença, vindo a falecer em 1924.
Joseph Stalin declarou-se sucessor de Lênin no comando da URSS e pouco depois empreendeu uma feroz política de perseguição aos seus adversários.  Trotsky foi expulso do país e acabaria assassinado, em 1941, no México, para onde havia se exilado. Stalin mandou apagar as imagens de seus adversários nas fotografias e, com isso, suprimi-los da memória popular  para escrever uma “nova história” do comunismo. A foto oficial de Lênin discursando sozinho no palanque foi publicada milhares de vezes em jornais, revistas e livros didáticos e serviu de inspiração a pinturas como a tela de Isaac Brodsky, feita em 1933.
 Hitler a caminho do poder

1932: Hitler parece constrangido e diminuído ao lado da figura altiva do marechal von Hindenburg, então com 85 anos de idade, o dobro da idade do líder nazista. Naquele ano, os nazistas haviam obtido expressiva votação e compunham a maioria dos deputados no Parlamento alemão. A foto registrou uma reunião em que  Hindenburg consultou Hitler sobre a demissão do gabinete Franz von Papen. No ano seguinte, ocorreu a campanha eleitoral e a fotografia serviu de base para o cartaz de propaganda política. Mas a figura de Hitler é bem diferente: com trajes militares e fisionomia confiante, ele transmite segurança e firmeza – qualidades esperadas do candidato de um país em aguda crise econômica. Os títulos do cartaz passam uma mensagem otimista e democrática. Ficam as perguntas: O que Hitler entendia por paz? Direitos de quem ele defendia? Neste ano, 1933, Hitler foi nomeado chanceler e começava sua escalada no poder.
 Mussolini comemora vitória que não aconteceu

29 de junho de 1942: Mussolini que acabara de desembarcar em Trípoli, monta a cavalo e ergue a espada de ouro do Islã que recebera dos muçulmanos da Líbia. A Segunda Guerra estava em curso. Nas semanas anteriores, tropas germano-italianas comandadas por Rommel haviam tomado Tobrouk e avançavam em direção ao Egito. Mussolini já se viu, vitorioso, no Cairo. No entanto, pouco depois, as tropas de Rommel foram detidas em El Alamein. Mussolini, ainda na Líbia, regressou à Roma.
Nos jornais italianos, a foto apareceu modificada: apagaram-se os indivíduos que mantinham o cavalo parado e retocou-se o céu ao fundo com nuvens entre luzes. Dessa maneira, tem-se uma figura majestosa de Mussolini, quase um herói mítico, desviando a atenção da derrota das tropas germano-italianas que, neste momento, estavam sendo expulsas da África pelas forças de Montgomery.
 Churchill segundo os nazistas

Julho de 1940: Churchill, primeiro-ministro britânico, junto com outras autoridades, passa revista nas tropas e examina a metralhadora de um soldado. A Segunda Guerra, iniciada em setembro de 1939, parecia vitoriosa aos alemães que naquele momento já ocupavam a França. O Reino Unido estava praticamente sozinho na luta contra o Eixo, mas seu poder de fogo era grande. O Ministério de Propaganda do Reich, liderado por  Joseph Goebbels usou todos artifícios para desabonar o líder inimigo. O recorte da figura de Churchill aplicado sobre um fundo que lembra parede ou muro, e o retoque na metralhadora (que aparece brilhando) passaram a ideia de que o primeiro-ministro britânico era um perigoso gangster.
 Os Estados Unidos saindo bem na fotografia

23 de fevereiro de 1945: Iwo Jima,  pequena ilha japonesa, é palco do primeiro confronto em território japonês. A batalha ainda estava em curso quando os fuzileiros ergueram a bandeira no ponto mais alto da ilha. O fotógrafo americano Joe Rosenthal, recém chegado na ilha, fez o registro. Ainda levariam cinco semanas de combate até a vitória final que matou 7 mil soldados americanos e 22 mil japoneses. Dias depois, o Secretário da Marinha chegou à zona de guerra e foi-lhe mostrada a foto do içamento da bandeira. Ele não gostou, achou que ela não valorizava a batalha, os soldados pareciam displicentes e o soldado em primeiro plano, com a metralhadora, triste ou amedrontado. Mandou trocar a bandeira.
Joe Rosenthal seguiu os soldados e, a uma distância de dez metros, fotografou-os no esforço coletivo de erguer uma bandeira maior e mais imponente que a anterior.  A batalha não havia terminado, mas a fotografia tornou-se o símbolo da vitória norte-americana na Segunda Guerra e ganhou o Prêmio Pulitzer de Fotografia. Uma das imagens mais icônicas do século XX, ela serviu de propaganda ao governo americano para estimular o recrutamento e o patriotismo da população. Os três fuzileiros sobreviventes que aparecem na foto, percorreram o país vendendo bônus de guerra e ainda pousaram para um escultor criar um memorial dessa batalha
Fonte
  • JOUBERT, Alain. Le Commissariat aux archives. Les fotos qui falsifient l’Histoire. Paris: Bernard Barrault, 1986.
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