terça-feira, 12 de maio de 2015

Conheça as guerras mais estúpidas da história militar.

Um olhar sobre ações impulsivas, tolices e trapalhadas da história.


Por Fabio Marton

Nas guerras, diz o sociólogo Herbert C. Kelman, da Universidade de Harvard, o processo de desumanização é condição sine qua non. Isso porque, quando se passa a olhar os adversários como se não fossem serem humanos, eles “não provocam mais compaixão e respostas morais, e devem sofrer de violência como resultado”, explica.

Se multidões enfurecidas são irracionais, os líderes que provocam essas massas não se saem melhor. “Nossa teoria é que guerras são iniciadas por pessoas, não por ideologias. E pessoas frequentemente tomam decisões apressadas e estúpidas”, disse a AVENTURAS NA HISTÓRIA o jornalista norte-americano Michael Prince, coautor de Guerras Estúpidas – Um Guia Sobre Golpes Fracassados, Ações Sem Sentido e Revoluções Ridículas, escrito em parceria com Ed Strosser.
TUDO POR DINHEIRO | A vergonha da Quarta Cruzada
Em 1202, o exército cruzado, com voluntários da Europa, estava em Veneza, cheio de fé e fúria – e nenhum tostão no bolso. Tentou alugar uma frota de barcos para Jerusalém, que pretendia reconquistar das mãos islâmicas, nas quais havia caído em 1187. Enrico Dandolo, o doge de Veneza, fez uma proposta: se os cruzados o ajudassem a capturar Zara, localidade croata rival comercial da cidade italiana, ele bancaria a viagem. Cego e com 95 anos, o mandatário fez os votos de cruzado e embarcou com os soldados supostamente rumo à Terra Santa, parando no caminho para trucidar os cristãos croatas, que em vão levantaram cruzes para mostrar que estavam do mesmo lado. A ameaça de excomunhão feita pelo papa Inocêncio III pouco valeu. Dandolo seguiu para Constantinopla e conquistou o lugar. Ricos com as pilhagens, os cruzados pagaram sua dívida e esqueceram a missão. No final, “o doge recebeu o pagamento na íntegra, mas os santificados guerreiros jamais puseram os pés em Jerusalém”, relatam Prince e Strosser.
Pelo senso comum, entrar numa empreitada cujo resultado depende da destruição de vidas e lugares deveria ser uma decisão extrema, tomada apenas após profundas considerações. Mas o que se vê, em quase todos os exemplos levantados no livro, são ações impulsivas, malplanejadas ou iniciadas por pura inércia. Entre 1979 e 1989, os soviéticos se atolaram no Afeganistão por um mero reflexo do espírito imperial russo – exatamente como haviam feito quatro décadas antes, durante a invasão da Finlândia, pouco antes do início da Segunda Guerra, e com os mesmos resultados.
Em 1982, a ditadura militar argentina acreditava que as Ilhas Malvinas eram tão insignificantes que o Reino Unido simplesmente não se interessaria em mandar uma força para reconquistá-las. A América do Sul, a propósito, é uma das “estrelas” dos episódios comentados pelos autores, empatando com os Estados Unidos em número de capítulos. Quatro das guerras da vizinhança foram classificadas entre as mais estúpidas da história: além do conflito nas Malvinas, a Guerra do Paraguai, a do Pacífico e a do Chaco.
O VIETNÃ SOVIÉTICO | Guerrilha islâmica pôs os russos para correr
O Afeganistão fazia parte da vasta região do planeta que a Rússia
considera seu quintal – a visão imperial não era diferente na época do regime soviético e do tempo dos czares. Em 1979, a União Soviética invadiu o país para apoiar o regime comunista local, ameaçado por facções islâmicas. “Assim como nos velhos tempos, quando o Exército Vermelho esmagou a oposição na Hungria em 1956 e na Tchecoslováquia em 1968, os russos acharam que a filosofia de Marx e Lenin seria mais bem ensinada com tanques metralhando o populacho”, dizem Strosser e Prince. Se os soviéticos riram dos EUA saindo do Vietnã, batidos pela guerrilha vietcongue, agora era a vez dos americanos. Mas não ririam por último. Com dinheiro da CIA, militantes islâmicos, entre os quais Osama bin Laden, fundaram a Al Qaeda – e a história segue ainda hoje.
“Na Guerra da Tríplice Aliança (a Guerra do Paraguai), as ações do líder paraguaio Solano López só podem ser interpretadas como insanas. A guerra inteira se tornou um exercício em estupidez assassina, conduzida em nome de sua obscena vaidade, movida por sua amante (a ex-prostituta irlandesa Eliza Lynch)”, destacam.
Vaidade, desejo de honra e glória e certo ethos machão. As características, abundantes na América do Sul, explicam a profusão de disputas sem sentido na região, mas estão longe de ser exclusividade local. Entre eventos citados no livro – passados da Roma Antiga às Cruzadas, na Alemanha Nazista e na União Soviética –, uma imagem começa a se formar: a do guerreiro estúpido através das eras. Esse tipo se forma, nas palavras de Prince, por uma combinação de “hubris [ambição desmedida] e poder. Eles nunca acreditam que possam estar errados e seus sucessos anteriores os levam a problemas épicos”.
SUJO CONTRA MAL-LAVADO | Orgulho ferido moveu a Guerra do Chaco
Indo dos Andes bolivianos até o Pantanal do Brasil, o Chaco é um deserto ou pântano, dependendo da estação do ano. E foi por esse grande pedaço de nada que, entre 1932 e 1935, os dois países mais pobres da América do Sul se digladiaram. Ambos com feridas de guerras passadas fazendo mancar o parco orgulho nacional: a Bolívia, por ter perdido seu litoral para o Chile, na Guerra do Pacífico, de 1879; o Paraguai, por ter perdido quase tudo na guerra contra a Tríplice Aliança, na década de 1860. Nos combates pelo Chaco, até 130 mil pessoas padeceram de ambos os lados, tudo isso apenas para provar que, por mais miserável que fossem, um não era mais fraco que o outro. “Certos países [...] habitam a categoria de perdedores da história. Para eles, o jeito de sair dessa categoria é bater em alguém. Qualquer um. Mas o que eles não entendem é que bater em outro perdedor não os coloca na categoria de vencedores”, registram os autores de Guerras Estúpidas.
Pode-se acrescentar que não raro subestimam os inimigos, como é possível ver no exemplo dos EUA achando que 1500 paus mandados seriam capazes de derrubar a ainda jovem Revolução Cubana. O que não quer dizer que todas as batalhas são igualmente estúpidas. “Só a maioria”, diz Prince. “Claramente, a Segunda Guerra precisava ser lutada”, afirma. “Hitler, Mussolini e os líderes militares japoneses, todos tinham péssimas intenções, e o mundo precisava se juntar para derrotá-los.”
O livro nasceu de uma conversa de bar entre os então colegas do curso de História da Universidade de Boston. Prince e Strosser discutiam um evento pouco conhecido: 5 mil soldados dos EUA invadiram a Sibéria em 1919. “Ficamos estupefatos em perceber quão ridículo e desconhecido o episódio era”, diz Prince.
ACIMA DE QUALQUER SUSPEITA | EUA queriam derrubar Fidel Castro sem que a ação parecesse coisa deles
Em 17 de abril de 1961, 1500 exilados cubanos desembarcaram na Baía dos Porcos, no sul de Cuba. O embaixador norte americano na ONU, Adlai Stevenson, repetia que as movimentações, detectadas meses antes, eram ações de um grupo de “cubanos patriotas”. A despeito de o New York Times ter publicado em janeiro que a CIA estava treinando cubanos para derrubar Castro. A Rádio Moscou anunciou o ataque quatro dias antes. “O problema para a CIA era criar uma força invasora poderosa o suficiente para vencer... mas não tão forte a ponto de revelar o apoio americano. A invasão, em essência, tinha que ser cubanizada – feita para parecer amadora.” Nesse ponto, a agência fez um belo trabalho: em três dias, os 1202 rebeldes que escaparam da morte estavam na prisão em Havana.
Sem condições de sobreviver no ambiente hostil da Rússia, americanos, ingleses e franceses tiveram que se retirar com o rabo entre as pernas. “Nenhuma guerra é engraçada. Há muitos ‘contos de glória’ na maioria da história escrita, na qual generais e políticos, que tomam decisões estúpidas que levam a muitas mortes, são tratados de forma frívola. Qualquer líder que começa uma guerra merece o mais duro escrutínio”, afirma o jornalista.
CONSPIRADORES COVARDES | Faltou coragem para matar Hitler
Nem a mais nobre das conspirações foi poupada na crítica de Strosser e Prince. Em 20 de julho de 1944, uma bomba de explosivo plástico detonou numa sala de reuniões na Toca do Lobo, o quartelgeneral secreto dos nazistas. Quatro figuras de alto escalão morreram. Nenhuma delas se chamava Adolf Hitler. O plano era agir com duas bombas, mas apenas uma delas explodiu – e estava na posição errada, poupando o führer e a maioria dos seus partidários. Foi plantada pelo coronel Claus von Stauffenberg, veterano do Exército alemão que desprezava os crimes nazistas e havia perdido um olho, a mão direita e dois dedos da esquerda em combate. “Stauffenberg, com apenas três dedos, teve problemas para ajustar a contagem regressiva do detonador. Embora conseguisse armar, foi incapaz de colocar a bomba reserva dentro da pasta”, afirmam Strosser e Prince. O coronel era parte de uma vasta conspiração contra Hitler, batizada de Orquestra Negra por seus inimigos nazistas. Por falta de voluntários, o mutilado veterano foi obrigado a cuidar dos artefatos, mas ele próprio não pretendia se sacrificar. Tanto é que já estava longe quando a maleta com a bomba foi mudada de posição por um oficial incomodado com o estorvo no caminho. Pode-se dizer que o apego à vida demonstrado por Stauffenberg e seus colegas foi a receita para o desastre: com Hitler sofrendo apenas ferimentos leves, em menos de 24 horas, todos os principais conspiradores foram executados.
Saiba mais
Livro
Guerras Estúpidas, Ed Strosser e Michael Prince, Record, 322 págs.

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