sábado, 16 de maio de 2015

A Idade Média contada nas salas de aula.

          
  
Nos últimos trinta anos, as pesquisas sobre a Idade Média lançaram novas luzes sobre esse período mostrando especificidades nacionais e regionais da Europa da época, grupos sociais, valores e representações do imaginário medieval. Contudo, a Idade Média dos pesquisadores não é a mesma daquela ensinada na escola que continua impregnada da visão elaborada por renascentistas e iluministas. Veja, a seguir, os 8 estereotipos mais comuns no ensino da Idade Média na escola.
1 – Generalizar conceitos para toda Europa medieval
castelo
A expressão Idade Média era desconhecida na época medieval. Ela surgiu no século XVI, com os humanistas italianos e só se tornou de uso corrente no XVII. Significava a “idade do meio”, isto é, intermediária entre a Antiguidade clássica e o Renascimento que inaugurava a Idade Moderna.

Isso quer dizer que os homens e mulheres que viveram no tempo dos castelos fortificados, dos feudos e das cruzadas sequer sabiam que estavam na Idade Média. Também não se identificavam como europeus e muito menos como franceses, italianos, alemães etc. Eles se reconheciam como cristãos e esse era o único laço de identidade que os distinguia do resto da humanidade.
Por outro lado, a Idade Média que se ensina nas escolas está longe de abranger toda a Europa naquele período de mil anos. Além disso, a Idade Média não pode ser confundida com feudalismo pois este, na forma como foi conceituado, só existiu de fato entre os séculos IX e X.
A propósito, os conceitos de feudalismo, sociedade feudal ou sistema feudal inexistiam na Idade Média. No mundo medieval conhecia-se a palavra “feudo”, usada para nomear a posse e usufruto de uma parcela do patrimônio fundiário do rei. Já feudalismo e outros conceitos similares foram criados recentemente para servirem de ferramenta teórica para o estudo da Europa medieval. E eles foram construídos tendo a França como modelo, ou seja, eles não abrangem outras realidades políticas, econômicas e sociais existentes na Europa da época.
Lembra ainda Marc Bloch:
“Talvez seja mais importante ainda constatar que a Europa feudal não foi totalmente feudalizada no mesmo grau nem segundo o mesmo ritmo e, especialmente, que em parte alguma o foi completamente. Em nenhum país, a população rural caiu totalmente nas malhas duma dependência pessoal e hereditária. Quase por toda parte – ainda que em número extremamente variável, conforme as regiões – subsistiram terras alodiais, grandes ou pequenas. A noção de Estado nunca desapareceu absolutamente (…). Na Normandia [norte da França], na Inglaterra dinamarquesa, em Espanha, mantiveram-se grupos de guerreiros camponeses.” (Bloch, p. 484-5)
2 – Delimitar a Idade Média a uma data de início e fim
Tomada de Constantinopla
É comum na sala de aula, o professor traçar na lousa uma longa linha do tempo escrevendo os anos 476 e 1453 como marcadores temporais da Idade Média. Tais datas foram definidas no século XIX por necessidade do ensino escolar e universitário em expansão, mas estão longe de serem consenso entre os historiadores.

A periodização é importante referência nos estudos históricos, mas nenhum pesquisador sério acredita que uma mudança significativa possa acontecer numa única data, um único fato ou um único lugar. A tomada de Constantinopla em 1453, marcando o fim do Império Romano, não foi traumática para a toda população europeia como se poderia supor. Mas a queda de Bizâncio espalhou, pela Europa, muitos sábios impregnados de cultura grega – elemento importante para o humanismo renascentista.
Há quem prefira marcar o término da Idade Média no ano de 1492, com a descoberta da América e expulsão dos muçulmanos de Granada. Já o medievalista Jacques Le Goff, afirma que a Idade Média durou até o final do século XVIII. Vê-se, portanto, que não há, nem poderia haver, uma data especifica que delimite a Idade Média.
Nem mesmo as divisões em Baixa e Alta Idade Média são atualmente empregadas. Se há um período a ser destacado nesses mil anos, foram os anos 908-1040 que, segundo Georges Duby, foi um momento de efervescência decisiva na vida econômica e social (desenvolvimento acelerado dos arroteamentos, construção de castelos fortificados,  vassalagem, da aldeia) e no domínio espiritual (movimento da paz de Deus, construção de igrejas, mito de Jerusalém preparando a cruzada). O século XII acelerou todo esse processo marcando um forte desenvolvimento econômico.
3 – Apresentar um único modelo de Idade Média
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O ensino da Idade Média nas escolas limita-se, muitas vezes, às formas de governo e à história de reinos e impérios, com ênfase para o Reino Franco e o Sacro Império Romano Germânico. Esse foi o modelo herdado dos manuais franceses e adotado pelo ensino de História no Brasil e ainda presente em muitos livros didáticos.

Ver um aluno atormentado em estudar o Tratado de Verdun, o renascimento carolíngio, dinastias medievais, a Guerra dos Trinta Anos, a Guerra dos Cem Anos nos perguntamos: qual a pertinência do ensino desta Idade Média em um país como Brasil que não viveu essa experiência histórica?
Observe-se que esse recorte acaba por eliminar ou reduzir drasticamente o estudo da História Ibérica e, mais especialmente, da formação de Portugal – tema que, para a História do Brasil, é de maior importância. Conhecer a história da monarquia portuguesa faz muito mais sentido para nós e daria outra dimensão ao ensino da Idade Média revelando aos alunos aspectos de nossa herança cultural que continuam a interagir com o presente.
Ainda nesta abordagem reducionista, está a caracterização da economia medieval como fechada, em torno do feudo e exclusivamente agrária. Marc Bloch critica essa visão fazendo referência ao mercado e às cidades que eram procuradas pelos camponeses para vender seus produtos. As trocas eram irregulares mas não inexistentes, lembra o historiador.
4 – Padronizar as estruturas sociais medievais
Hieronymus-bosch_The Pedlar
Outra abordagem homogeneizada do período medieval aparece nas relações sociais e políticas que opõe um “rei fraco” a “senhores feudais fortes” – situação que só se altera a partir do momento que o “rei” se alia à burguesia. Na mesma linha, são definidas as relações entre senhores opressores que exploram camponeses (confundidos com servos) passivos e submissos.

Esta abordagem simplista que apresenta uma sociedade tripartida em senhores/nobreza, clero e servos, rigidamente hierarquizada, fica ainda mais reforçada pelo famigerado desenho de uma pirâmide social dividida em três partes – modelo que reproduz, sem refletir, a célebre descrição da “casa de Deus” feita por Adalberón de Laon no século X.
Como lembra Marc Bloch, a sociedade medieval foi mais uma sociedade desigual do que hierarquizada, mais de chefes do que de nobres.
Se a servidão foi o tipo de relação social predominante no feudalismo, ela não foi a única e está longe de abranger a diversidade de estruturas sociais existente no período. Comerciantes e artesãos nunca deixaram de existir. Nem a escravidão foi totalmente extinta da Europa medieval. Escravos vindos da África e das terras banhadas pelo mar Negro e Báltico eram vendidos nas cidades italianas para senhores de diversos pontos da Europa.
Foi a disponibilidade de escravos muçulmanos que impediu que a servidão se consolidasse na Península Ibérica, diferente do que ocorreu na França. Em Portugal, como afirma Perry Anderson, a servidão mal consolidada começou a desaparecer no século XIII. A coexistência étnico-religiosa entre muçulmanos, judeus e cristãos em Portugal e Espanha dá à sociedade medieval ibérica uma particularidade desconhecida no resto da Europa.
5 – Destacar a opressão senhorial em detrimento da noção de fidelidade feudal
São Luis recebe homenagem de Henrique III da  Inglaterra
A Idade Média ensinada nas escolas é caracterizada, entre outras coisas, pela opressão senhorial sobre o campesinato oprimido pelas obrigações, pela fome, pela guerra e pelas doenças. Trata-se de uma caracterização que não dá conta da dinâmica da vida social no período medieval e que não se sustenta frente a uma simples pergunta: como as pessoas puderam viver assim durante mil anos? Ninguém reclamou?

A sociedade medieval assentava-se nos vínculos de fidelidade. Esta noção implicava um contrato no qual existia a devoção e a proteção. Ao camponês cabia a prestação de serviço e a obediência ao senhor, e este devia proteger o servo. Esse vínculo se reproduzia entre suseranos e vassalos, entre marido e esposa, entre a Igreja e os fiéis. Laços de dependência e fidelidade eram a base das representações políticas, econômicas, sociais, culturais e do cotidiano.
É importante ressaltar para os alunos a inexistência de salário na Idade Média, isto é, do pagamento periódico de uma quantia de dinheiro por um serviço contratado. Este era remunerado por um benefício que acabava estabelecendo fortes vínculos de fidelidade e consolidando relações humanas ou mesmo familiares permanentes. A quebra desses laços provocava guerras que, muitas vezes, estendiam-se por gerações.
Além disso, as relações pessoais fundamentadas na dependência e subordinação, impediam a afirmação de uma personalidade individual. O homem e a mulher medievais que viviam no campo desconheciam o que nós entendemos por individualidade e privacidade.
6 – Considerar a Idade Média como uma época de atraso científico e intelectual
Antifonario
Longe do que se imagina, a Idade Média criou e difundiu conhecimentos científicos e um de seus maiores legados intelectuais foram as universidades. As primeiras universidades apareceram em Bolonha (1119), em Paris (1150), em Oxford (1168) e em Cambridge (1209) como associações de mestres e alunos. Foram valorizadas por reis e papas e reagiram às tentativas de controle dos poderes locais. Aliás, uma herança das universidades medievais é o costume do trote aos alunos recém-ingressos, muitas vezes aplicado de forma perversa.

A burguesia urbana, além de favorecer a expansão das atividades econômicas, estimulou a expansão da escrita, a disseminação de novas ideias contribuindo para importantes transformações culturais.
“Mas a Idade Média foi também, acho até principalmente, um grande período criativo. Podemos ver isso nos domínios da arte, das instituições, sobretudo nas cidades (por exemplo, nas universidades), ou ainda no campo do pensamento – a filosofia que chamamos de “escolástica” atingiu altos patamares do saber. Também vimos até que ponto a Idade Média criou “lugares de encontro” comerciais e festivos (as feiras, as festas), que continuam a nos inspirar. (Le Goff, 2007, p. 112)
7 – Contrapor a ruralização da economia ao renascimento urbano e comercial
Construcao de uma cidade medieval
Uma das teses clássicas sobre a Idade Média afirma que após um processo de ruralização da economia em que as cidades e o comércio desapareceram, a Europa conheceu um vigoroso renascimento comercial e urbano. Criticando essa visão, Marc Bloch lembra que o comércio nunca deixou de existir durante toda Idade Média. Jacques Le Goff completa afirmando que as cidades criadas na Antiguidade sobreviveram na Idade Média e que a partir do século XI ocorreu um alargamento das atividades econômicas dos núcleos urbanos de origem antiga.

Assim, no lugar de um “renascimento comercial e urbano”, houve, na verdade, um crescimento das atividades comerciais como também a expansão da produção agrária, que favoreceu o desenvolvimento do comércio. Tais transformações contribuíram para um forte crescimento demográfico entre os séculos XII e XIII.
O mundo urbano estava intimamente vinculado ao mundo rural medieval exercendo influências sobre a nobreza e os camponeses acelerando mudanças no campo. As atividades comerciais e artesanais das cidades estavam ligadas às atividades desenvolvidas no campo. A cidade medieval era consumidora de víveres e matérias primas produzidos nos feudos. Os senhores davam proteção às feiras e garantiam a segurança nas estradas.
8 – Desprezar a mentalidade medieval
Uccello
Já não se usa mais o termo “idade das trevas”, porém, ainda subsiste a ideia de uma Europa medieval atrasada mergulhada em crenças ditas absurdas e fantasias repletas de magos, feiticeiras, fadas, dragões, ogros, cavaleiros errantes e duendes. É pertinente lembrar a atração que essas representações exercem sobre os alunos e o sucesso que fazem no cinema, em jogos eletrônicos e livros de ficção. Talvez, por isso mesmo, deve-se considerar a pertinência de levar esse conteúdo à sala de aula.

As figuras do imaginário pagão sobreviveram à consolidação da fé cristã e continuaram vivas nas camadas populares mesmo sofrendo a perseguição e intolerância da Igreja medieval. A Igreja denominava-os de “seres maravilhosos” pertencentes a uma realidade sobrenatural (mas não sagrada nem religiosa) que poderia se manifestar como os anjos e os demônios. Criou-se assim uma simbiose onde se misturavam elementos cristãos e pagãos, como foi o caso de São Jorge, o santo cavaleiro que matou o dragão.
O imaginário pagão e o maravilhoso cristão produziram uma rica tradição oral em lendas, contos e fábulas que hoje fazem parte de nossa herança cultural. Como lembra Macedo, “herdamos da Idade Média nosso gosto por ouvir boas histórias, boas narrativas, boas canções”. Trazer esse patrimônio cultural para a sala de aula é uma boa maneira de aproximar os alunos da Idade Média e do imaginário medieval.  Além disso, a rica literatura medieval aborda situações, sentimentos e padrões de conduta que são importantes aos adolescentes como amor, amizade, honra e fidelidade.
São numerosas as opções de textos da literatura medieval, entre elas, o ciclo do rei Arthur e dos cavaleiros da Távola Redonda, a busca do Santo Graal, El Cid campeador, Carlos Magno e os doze pares de França, contos de aventura e amor escritos por Maria de França no século XII, e uma infinidade de fábulas. (Veja sugestões ao final desse artigo.)
Cabe lembrar ainda que os europeus que participaram da expansão marítima e comercial, da conquista e da colonização da América, apesar de serem contemporâneos ao humanismo renascentista, estavam impregnados de uma mentalidade de base medieval. As façanhas dos heróis lendários e as ameaças de seres fantásticos ainda povoavam suas cabeças e foram trazidas para o Novo Mundo aqui se espalhando e criando novas formas de pensamento. Uma Idade Média mágica e sobrenatural subsiste no nosso imaginário.
Fonte
  • ANDERSON, Perry. Passagens da Antiguidade ao Feudalismo. Porto: Afrontamento, 1989.
  • BLOCH, Marc. A sociedade feudal. Lisboa: Ed. 70, 1982.
  • FERRO, Marc. A manipulação da história no ensino e nos meios de comunicação de massa. São Paulo: Ibrasa, 1983.
  • HEERS, Jacques. A Idade Média, uma impostura. Asa, 1994.
  • LE GOFF, Jacques. A Idade Média explicada aos meus filhos. Rio de Janeiro: Agir, 2007.
  • ______. A velha Europa e a nossa. Lisboa: Ed. Gradiva, 1995.
  • ______. Em busca da Idade Média. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.
  • MACEDO, José Rivair. Repensando a Idade Média no ensino de História. In: KARNAL, Leandro (org.). História na sala de aula. Conceitos, práticas e propostas. São Paulo: Contexto, 20013.
  • PERNOUD, Regine. Idade Média: o que não nos ensinaram. Rio de Janeiro: Agir, 1994.
Literatura medieval
  • ARRABAL, José. El Cid Campeador. São Paulo: Paulinas, 1988.
  • FURTADO, Antonio Luis. Lais de Maria de França. São Paulo: Martins Fontes, 2014
  • HUISMAN, Marcele e HUISMAN, Georges. Contos e lendas da Idade Média. Lisboa: Verbo, 1986.
  • MASSARDIER, Gilles. Contos e lendas da Europa Medieval. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
  • Pequenas fábulas medievais. São Paulo: Martins Fontes, 1995.
  • TROYES, Chrétien de. Romances da Távola Redonda. São Paulo: Martins Fontes, 1991.
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